artes visuais

Murica – Fome (2019)

Em meio ao oceano inundado do trap, o álbum Fome (2019) de Murica mostra que o hip-hop ainda respira e se reinventa. Um “poeta destinado a seguir na contramão”

Nesses dias, estava ouvindo o álbum Músicas pra Drift (2017) do artista Yung Buda, e estava impressionado nas possibilidades estéticas do trap. Movimento que surge dentro do contexto do rap, e que entretanto abre uma nova vertente estética de forma que às vezes se desmembra do movimento hip-hop, assumindo estéticas músicais distintas, além de letras que envolvem o crime, sexo, ostentação, marcas de roupas e carros – algo muito parecido com o funk ostentação proliferado nas comunidades da baixada santista e que conquistou o país no início da década 2010.

Mesmo entendendo o trap como uma manifestação negra que surgiu nas periferias, podendo às vezes ser interpretada como uma forma de empoderamento ou de uma retratação de uma certa cultura, é comum – a partir de sua massificação através das mídias digitais – um processo de embranquecimento da música além de esvaziamento do discurso. Diante desse cenário, o álbum Fome (2019) me chamou a atenção, justamente por trazer a partir das letras, um resgate da cultura de rua do hip-hop, ambientado numa estética do beat boom bap, sem ser saudosista, mas ao contrário, propondo novas formas e possibilidades de se fazer rap.

O álbum de estreia de Murica – conhecido pela forma de envolver seus adversários nas batalhas de rap pelo Brasil – mostra seu estilo subversivo de rima, conhecida popularmente como ‘rima métrica’. Nessa estrutura, não se segue um padrão a-a-b-b, mas mistura as sequências, tornando a poesia mais fluida, sofisticada e surpreendente. Às vezes, o verso que está no começo do poema, só irá rimar com o último, gerando uma sensação de dejavú. Aqui, no verso da faixa de introdução Fome, Murica coloca no meio de uma sequência que abre com “Meu bando vem do íntimo“, dois versos dos quais não rimam, entretanto, ao terminar com “Chama o síndico“, acaba conectando a rima com o verso que abriu a sequência, não importando a desconexão desses versos do meio:

Nem divino (a)
nem diabólico (b)
psicodélico (b)
Nem celeste, (-)
nem satânico, (c)
um pouco cínico (a)

Meu bando vem do íntimo(a)
do subterrâneo (c)
Pesadelo dos tiranos (-)
Chama o síndico. (a)

Outra característica do artista, é a forma como ele encara o tempo da batida (métrica), a qual às vezes é estendida a partir dos desencaixes das letras dentro das marcações, como no exemplo da mesma faixa “Fome”, o qual toda estrutura não segue o tempo, deixando a melodia mais envolvente, e para tentar realocar a letra no tempo da batida, Murica insere um verso no final da estrutura, que contém somente uma palavra “Peço”, responsável em fazer um contratempo e preparar a entrada do refrão:

Novos fumos, rumos, ideias
Skate na veia, morar com ela
Comer vivência, cagar na regra
E se não for pedir demais
Inspiração pra escrever mais essa
Peço…

Na faixa “Esquinaparanóiadelirante“, uma citação direta da música De esquina” (1999) de Xis e Dentinho, que traz o beat um pouco mais swingado a partir das influências de funk e soul americano. Em contrapartida, na de Murica, temos a ambiência de um teclado e sax, trazendo toda atmosfera de um jazz. A partir do ritmo das letras colocadas no tempo, a voz de Murica soa como um sax ou trompete responsáveis em frasear a música. Com ritmos rápidos e nervosos, as letras atacam o tempo como um jazz bebop à la Charlie Parker, no modo como ele pronuncia quase sem pausa as palavras:

E se não suja não cola
E se não cola não sabe
Sabendo pouco de esguelha
Faltou atividade
Não desvirou a chinela?!
Que a favela te cubra de facada e vinagre
Ô, zé ruela
Vivências das ruas…

e no refrão um pouco mais ritmado com duas sequências, e a pronunciação quase sem pausa de “esquinaparanóiadelirante”:

Meu templo é a música
Esquinaparanóiadelirante
Vivências das ruas
Meu templo é a
Esquinaparanóiadelirante

(Charlie Parker, saxofonista. Um dos grandes nomes do bebop jazz.)

Em contrapartida, “Dragão de Incômodo“, opta por obedecer as estruturas métricas do beat (bombap), tentando ressaltar assim como fez Sabotage em “Rap é compromisso” (2000), uma música mais “pedrada” e pesada, como se fossem golpes de socos. Na música de Sabotage, dizem que Sandrão do RZO sugeriu que se mudasse a métrica da palavra “Brooklin”, pois a última sílaba terminava no contratempo do beat, deixando o ritmo mais quebrado. Portanto, na versão final, fez com que o rapper estendesse a última sílaba para que terminasse junto com o beat: “Bro….klin”, deixando-a mais forte:

“Favela do Canão
ali da Zona Sul,
sim…
Bro…klin.”

Com essa ideia, a música de Murica é permeada por rimas que aproveitam a carona do beat, colocando as sílabas tônicas ressonantes com a marcação do tempo. Desse modo, “Dragão de incômodo” traz um pouco do movimento e da violência das ruas através de sua melodia, e na última sequência do refrão, o rapper acrescenta um verso “Porra“, que se disfarça como um beat, sendo que nesse momento a base da música é silenciada, deixando que somente a voz do cantor termine:

Crias do underground não esquecem o pai
Vai pelo asfalto e representa nóis
Esse é o barulho que a rua faz
Boom – bap – porra!

É impressionante a sensibilidade de relacionar a palavra que deu origem ao tipo de beat, “Bombap”, aproveitando de sua sonoridade (não coincidente) para coloca-lá como o próprio beat da música. Em outros momentos, o produtor (MK) utiliza desse mesmo recurso do refrão, ao tirar o beat e deixar que as palavras de Murica sejam responsáveis em manter a percussão da música, como no caso em que ele utiliza uma onomatopeia para resolver o tempo e a melodia da música:

Batizado e consagrado
Murica sujão
Surgiu, se fodeu
Acordaram o dragão
Uh, rá!

Por taguá a milhão
Trabalhando pra mim
Demitindo o patrão

Sempre importante lembrar que Murica vem do contexto da cultura hip-hop, na cena das batalhas de rima do DF. A batalha de rima, muitas vezes, assume a responsabilidade de ser um espaço de preparo para diversos artistas, devido a necessidade de convicção, envolvimento, raciocínio rápido e respostas acertivas dentro do tempo do flow do beat,  elementos não tão distintos dos artístas de jazz. Já que para se improvisar, é preciso bases bem definidas, Murica expressa a sua liberdade a partir de uma estrutura consolidada do boombap, como um jazzista bebop ao colocar seus versos na métrica. É inegável a intersecção ocorrida entre a poesia de rua e a música popular – o álbum Fome, mostra que a potência criativa de artistas do Brasil, e que o hip-hop ainda estão vivos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s