artes visuais

Entrevista – Dante Horoiwa

Dante Horoiwa é um pintor/muralista autodidata nascido em São Paulo, Brasil, em 1988. Recentemente, Horoiwa expôs suas pinturas no Museu El Centenario, no México, em galerias e cento culturais da Austrália, Estados Unidos, Brasil, e também pintou murais de grande escala na Holanda e Bielorrúsia. Seu processo de pintura é completamente intuitivo, mergulhando nas profundezas da experiência humana para explorar o que é visto e o que não é visto.
Na entrevista concedida para o curador, Allan Yzumizawa, o artista comenta sobre as relações com seus antepassados emishi/ainus, questões referentes à identidade e a experiência de sua residência artística no Japão.

Allan Yzumizawa: Como você descobriu que era descendente de Emishi/Ainu?

Dante Horoiwa: Eu fiquei morando cinco anos no sul de Minas Gerais, em Itapeva. Eu fui morar por lá, porque eu fiquei intoxicado aqui em São Paulo pois pintava exaustivamente num quarto muito pequeno. Como meus pais tinham um sitio lá em Minas, acabei me mudando para fugir da poluição de São Paulo e respirar um pouco de ar puro. Não pretendia ficar por muito tempo, mas acabou que durante o processo, me estabeleci por 5 anos.
Nos primeiros anos eu ficava pintando o dia inteiro. Foi lá que acabei aprendendo a mexer com acrílica, já que eu tava com uma certa alergia de terebintina, então não conseguia usar mais tinta à óleo. Entretanto, chegou num ponto em que eu fiquei tão conectado com a terra que eu comecei a plantar e a me envolver com agricultura. Comecei a estudar agrofloresta, agroecologia, como preparar o solo e aí chegou num ponto em que eu parei de pintar e comecei a fazer feira toda semana. Eu queria aprender a plantar e pra aprender de fato, tinha que me dedicar todos os dias, e de alguma forma tudo que colhia, tinha que escoar para algum lugar (risos), então comecei a vender na feira.

AY: Mas esse desejo de plantar surgiu do nada?

DH: Não… foi um grande processo. Estou somente resumindo.
Nesse período em que me mudei pra Minas Gerais, eu produzi muita coisa – a maioria da minha produção, vem dessa época, foi um mergulho bastante intenso e isso me deixou meio desequilibrado emocionalmente: síndrome do pânico no meio do mato, crise de ansiedade e aí eu só comecei a me conectar com outras coisas quando parei de pintar. Comecei a estudar meditação, nutrição – mudei completamente minha alimentação. Aí depois que comecei a germinar grãos, comecei a ter interesse em agricultura. Senti uma mudança muito grande no meu corpo e mente, e então decidi estudar agricultura pra produzir meus próprios alimentos.

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Dante Horoiwa. Impermanente. acrílica sobre tela. 122 x 330 cm.

Nessa época que eu estava plantando e me cadastrei no WWOOF (Worldwide Opportunities on Organic Farms) que é um site de onde produtores que trabalham com agricultura orgânica se cadastram pra receber voluntários pra ajudarem com os trabalhos diários da produção, e em troca você oferece hospedagem. Depois que me cadastrei, eu recebi uns 4 voluntários e uma delas era uma japonesa. Sempre quando eu falava meu sobrenome para japoneses, ninguém nunca tinha ouvido falar Horoiwa… Um dia ela me perguntou como era meu kanji¹, perguntei para o meu irmão, aí eu repassei pra ela e que no fim das contas, nunca tinha visto. Então ela foi pesquisar e viu num site da internet que o kanji de “Horo” tinha origem ainu. Nesse momento eu senti que tinha que ir pro Japão pesquisar sobre isso, porque ninguém da minha família havia comentado sobre. O que eu ouvia falar era que meu bisavô morava no mato, meu avô dizia ser algo como uma “aldeia” e eles eram super discriminados no Japão, diziam que nosso sobrenome que não tinha valor nenhum.

 


E assim eu fui para Japão com a única informação que eu tinha, que era meu sobrenome. Meu avô veio de Iwate, nordeste do Japão, só que hoje em dia, só tem ainu em Hokkaido. Então decidi ir pra Hokkaido, apliquei pra uma residência artística pra fazer uma pesquisa sobre meu sobrenome. Eu visitei alguns centros culturais ainu em Sapporo. Ninguém falava inglês, então foi bem difícil… mas aí eu fui num centro em Nibutani, onde tem uma das maiores populações de ainu no Japão. Lá tinha um pesquisador e professor de língua ainu que falava inglês e achou muito provável que meu sobrenome tenha origem da língua ainu.
Os Ainus não tinham escrita e nem sobrenome. Quando o império japonês colonizou esses povos, eles nomearam os lugares ainus de acordo com o som da palavra. De acordo com ele, Horoiwa veio de “Poroiwa” (Poro-iwa[k]) na língua desse povo, significa “Grande Montanha” ou também algo como “Montanha sagrada” onde os Kamuis (Deuses) habitam.
Então o significado do kanji do meu sobrenome, não tinha nada a ver com o significado do nome na língua Ainu. Tem um lago em Hokkaido por exemplo que se chama Shikotsu, em kanji significa “Ossos Mortos”, em Ainu significa “Vale Profundo”. Dizem que eles até tentaram mudar o nome mas não conseguiram… Então tem um embate cultural nisso.

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Lago Shikotsu

Depois pesquisando mais a fundo, eu vi que na verdade o termo correto para os indígenas que moravam em Tohoku, a região onde meu avô nasceu não é Ainu, mas sim “Emishi”. Os Emishis foram colonizados muito anteriormente. E pelo que pesquisei, Emishis e os Ainus compartilharam a mesma cultura por cerca de 9 mil anos – tinha algumas diferenças, mas dizem que a região de Tohoku, está povoadas de nomes Emishi/Ainu por todo canto. Então esse lugar que chama Horoiwa em Iwate, é praticamente em uma montanha, pois Poroiwa (Poro-iwa[k]) é um nome sagrado que davam para o kotan (aldeia em emishi/ainu). Todos os lugares que tem esse nome Horoiwa no Japão são montanhas, e provavelmente eram todos aldeias (kotan).

Arnold Genthe. Ainu man and seated woman at the entrance of a hut (1908)

Arnold Genthe. Ainu man and seated woman at the entrance of a hut (1908)

Quando fui à Tóquio num centro Ainu, pude ter contato de um livro com todos os nomes ainus oficiais, e lá tinha Horoiwa / Poroiwa, mas o kanji do mesmo nome em Hokkaido é diferente do de Iwate. São estudos muito recentes, então alguns pesquisadores só consideram os povos mais atuais que são de Hokkaido. Entretanto há esse resquício na região de Tohoku como também habitada por povos indígenas, e os diversos nomes Emishi/Ainu espalhados por essa região. São como vestígios de uma cultura.

AY: Pelo o que eu vi, teve uma grande diáspora de ainus para outros países também…

DH: Sim, pelo que sei no Havai, Estados Unidos, Brasil… Quando eu tava no Japão, eu conheci uma jornalista (Satomi san) que trabalha com indígenas do Xingu no Brasil, e ela me apresentou a sua amiga, Angela Palppiani, que trouxe alguns ainus para São Paulo na década de 90. Ela era casada com o Krenak (Ailton), e eles tinham um programa na rádio chamado “Programa de Índio“. Eles gravaram um programa sobre a história de um senhor ainu (Yopo) que morava em Hokkaido e o sonho dele era vir para o Brasil conhecer os indígenas brasileiros porque ele afirmava que eles eram muito parecidos com os ainus, então o senhor Yopo veio para o Brasil e morou por aqui durante 15 anos. Só que depois disso, ele resolveu voltar para Hokkaido pois estava sentindo que ia morrer, e gostaria de morrer na terra onde vieram seus ancestrais. Depois de um ano de retorno para o Japão, ele veio a falecer.

AY: Como foi sua experiência subjetiva na residência no Japão. O que você pôde perceber e sentir estando por lá?

DH: Então, foi meio decepcionante e triste. Eles não mantém mais seus hábitos… Vivem como japoneses mesmo. Teve uma política de dizimação muito forte desses povos, é muito triste. Ao mesmo tempo senti uma conexão muito forte. Eu tava conversando com meu irmão, que trabalha com música, e ele achou engraçado que depois que começamos a pesquisar, pudemos observar o quanto a composição musical que ele fazia – mesmo antes de saber dos nossos antepassados – retratavam essa paisagem ancestral que nunca vivemos, mas que pulsa dentro da gente. Senti muito isso, porque inconscientemente meus caminhos foram levados para eu ir pro mato e virar agricultor e ter essa conexão com a terra. Dentro de mim tem uma relação absurda da necessidade de ter uma relação com a natureza, com a terra – que é meu grande sonho de vida. Até mesmo as pinturas… O meu processo de pintura sempre foi muito inconsciente. Completamente intuitivo. Tem muitas imagens que remetem algo indígena, que surgem do meu imaginário e aparecem na pintura.

AY: Como funciona o seu processo de pintura? Você cria essas imagens do seu imaginário, ou tem uma pesquisa prévia de símbolos e signos?

DH: Nessa época, quando eu morava em Minas, era completamente intuitivo, sem esboço, sem nada, eu só ia pra tela pintar. Camadas atrás de camadas e as imagens surgiam no processo. Depois que soube da minha origem, retornei meu olhar para as pinturas, e foi engraçado porque tudo fez muito sentido pra mim. Mas essa minha experiência no Japão foi um grande privilégio. Observando o pouco que pude, não sei como será o futuro, mas pelo o que caminha, a tendência é que seja muito difícil para esses povos sobreviverem. Até mesmo cerimônias, como de casamento. Pelo que esse pesquisador que eu tive contado em Hokkaido me disse, hoje em dia a maioria dos ainus fazem cerimônias budistas ou xintoístas pois eles não querem se sentir desconfortáveis em serem diferentes do resto sociedade.

AY: Você sente que esse apagamento vem também de uma pressão social?

DH: Completamente.

 

AY: Eu fico pensando se um grupo de emishis/ainus que ainda possuem um pouco da sua tradição, um dia vir para o Brasil… Será que ficariam mais à vontade em praticar seus costumes?

DH: Pelo o que eu sei, esse grupo ainu de músicos que veio para o Brasil, se apresentaram no Parque da Água Branca (São Paulo), e visitaram indígenas brasileiros. Pelo o que a Angela me falou, eles adoraram e se sentiram em casa. Não é a toa que esse senhor Yopo queria vir para cá, porque achava que aqui tinha uma cultura muito viva e rica. Uma cultura que ainda persiste.

AY: Eu tô lendo um romance de um escritor nippo-brasileiro, Oscar Nakasato, chamado Nihonjin. Tem uma parte que ele comenta sobre essa relação dos japoneses com a natureza, com a agricultura porém atualizada num novo país. Nesse sentido, me lembrei de algumas fotografias do Haruo Ohara. O que mais me chamou a atenção conectando essa passagem do livro e as fotos dele, são além da conexão do japonês com a terra e uma certa composição bem minimalista japonesa, uma nova paisagem recontextualizada que só vai encontrar aqui no Brasil. Ou seja, esse deslocamento territorial, esse desterro, acaba virando ao mesmo tempo um novo espaço de reconexão, a construção de um novo território.

DH: Nessa época em que eu estava plantando, eu descobri um espaço chamado Yuba localizado em Mirandópolis, cerca de 600km de São Paulo. Eu tinha uma pergunta dentro de mim que era: Existe algum lugar aqui no Brasil em que as pessoas vivem com arte e com a terra? E eu descobri esse lugar que é quase uma sociedade utópica. Foi fundada mais ou menos na década de 1930 e até hoje, a primeira língua é japonesa. Foi construida por um imigrante japonês, chamado Isamu Yuba que após ter lido algumas ideias de Marx e Rousseau, queria fundar uma comunidade baseada em três pilares: arte, espiritualidade e natureza. Então eles têm a subsistência da agricultura. Hoje em dia vivem cerca de 70 pessoas, mas teve época que moravam 300 pessoas, e funcionam até hoje, de uma maneira quase auto-suficiente. Pelo que sei, não circula dinheiro dentro da comunidade. Eles vivem da agricultura, mas além disso construiram um teatro na comunidade. Então, durante o dia se dedicam a plantação e de noite se dedicam às artes. Tem teatro, aula de balé, teve até um escultor que chegou a morar por lá também (Hisao Ohara)… o filho do Kazuo Ohno já se apresentou por lá uma vez.
Teve uma época em que eles aplicaram no edital de Pontos de Cultura, e começaram a dar aulas de música para a comunidade. Então virou também um grande espaço de cultura na região. Ainda não tive a oportunidade de visitar, mas gostaria de visitar futuramente pois realmente fiquei encantado.

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Lucille Kanzawa. Yuba. fotografia

AY: Eu fiquei bastante tempo olhando para o seu trabalho Vacuidade. Achei aquilo incrível. Pelo fato de ser um tríptico, cria uma certa dúvida no sentido do movimento da água pois não dá pra saber se a figura do corpo está emergindo ou afundando, portanto, me indica uma estagnação, flutuação. Pra mim, tem muito do silêncio e de uma interiorização muito forte, uma espécie de busca, só que para dentro. É muito angustiante descobrir todos esses vestígios de identidade e ver que há poucas possibilidades de recuperar essa cultura ou que é muito difícil buscar esse passado e então, acaba tendo como opção, essa interiorização…

DH: Ainda que é um privilégio a gente conseguir buscar pelo menos alguma coisa, porque aqui no Brasil, as pessoas não tem nenhuma condição ou direito de ter um passado, tudo foi exterminado pelos colonizadores. É um privilégio, ver pelo menos alguns reminiscentes dessa cultura.

Vacuidade. óleo sobre tela. 75 x 186cm.

Dante Horoiwa. Vacuidade. acrílica e óleo sobre tela. 75 x 186cm.

AY: Ao mesmo tempo, fico pensando em como nos entender como brasileiros. A complexidade de fluxos de identidades e a partir disso, como criar algo novo? Como propor também novas subjetividades?

DH: Por exemplo você vê a cidade de Cunha, onde trouxeram a tradição da cerâmica do forno Noborigama do Japão, pelo menos o que eu senti quando visitei a cidade, é que eles ainda não são assimilados culturalmente mesmo após 40 anos de fixação no país. Os moradores locais os consideram estrangeiros, tem aí, uma desconexão cultural. É bem estranha essa relação de isolamento. Mas hoje eles fazem um trabalho muito bonito com o instituto de cerâmica para que tenha essa assimilação cultural com as pessoas locais, ensinando jovens do ensino médio através do Instituto.

AY: Acho que tem um fato dos japoneses, quando vieram para o Brasil, não terem o desejo de ficar no país, e isso fez com que eles se isolassem em comunidades… Contudo, nossa geração, já nasce num outro contexto, já dentro de uma condição de brasileiro.  Teve um certo período da minha adolescência, em que eu negava demais os meus ancestrais, um pouco pelo fato de querer me inserir socialmente e me entender como brasileiro. Quando fui pra faculdade, eu tinha aula de desenho com a prfª Lygia Eluf, e aos poucos começou a aparecer nas minhas produções todo esse lado dos meus ancestrais. No final, meus desenhos eram uma recontextualização do sumi-ê², mesmo eu não querendo aquilo racionalmente. Então parei pra pensar e me perguntar: porque ao invés de negar, eu tentar negociar esse fluxo cultural japonês dentro de mim como sendo uma identidade brasileira.  Nós temos muitas identidades que são suprimidas e temos que entender a nossa complexidade cultural. Imagino que é muito doloroso por exemplo nos descendentes de escravizadas e escravizados negros que seu passado e sua origem foram totalmente dizimadas – então como construir uma identidade a partir de vestígios ou ruínas?

DH: Nossos avós não tinham tempo pra parar pra pensar sobre o que é ser amarelo no Brasil. Eles apenas queriam pertencer a um país estranho que eles não falavam a língua e que então, de repente era a sua nova casa. Uma nova casa onde foram perseguidos, discriminados e racializados como o “perigo amarelo” num passado recente do país, onde havia todo tipo de propaganda racista veiculado pela grande imprensa da época que nos chamavam de “aborígenes nipões”, “inassimiláveis como enxofre”, “de raça degenerada”.
Acredito que a última coisa que eles queriam, era causar mais choque, ou situações que evidenciavam ainda mais o quanto eles não pertenciam à esse país. A invisibilização da raça amarela e das comunidades asiáticas gera esse apagamento histórico. A experiência com racismo é incomparável com a do racismo negro, mas ela existe e também mexe com a identidade, autoimagem e autoestima de asiáticos e descendentes.
Com o fortalecimento dos movimentos identitários asiáticos brasileiros que estão surgindo agora, torna-se cada vez mais possível refletir sobre nossa identidade e não normalizar situações de discriminação. Refletir sobre isso agora é um privilégio que as gerações anteriores não tiveram. Essa questão de identidade é tão importante e ao mesmo tempo difícil… Somos um povo diaspórico… A gente pertence a dois lugares, mas ao mesmo tempo não pertence, é como se tivéssemos que abrir um “entre-lugar” que é muito nosso, que é a soma de nossas origens e do que construímos por nós mesmos.


¹ são caracteres da língua japonesa adquiridos a partir de caracteres chineses, da época da Dinastia Han, que se utilizam para escrever japonês junto com os caracteres silabários japoneses katakana e hiragana. No mundo ocidental, kanji, também é sinónimo de ideograma.
² é uma uma técnica de pintura oriental que surgiu na China no século II da era cristã. Da China o sumi-ê foi levado ao Japão onde tornou-se mais difundido. A palavra tem raiz japonesa e significa pintura com tinta.

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