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Bar do Carlinhos – Barrinha (Cajueiro da Praia – PI)

 

Fazia um tempo que meus avós estavam querendo conhecer o nordeste. Decidimos, contudo fazer uma rota de Fortaleza passando por Jericoacoara, e depois indo rumo ao litoral piauiense. Nosso destino final, foi Barra Grande, a qual pertence ao município de Cajueiro da Praia, no Piauí.

Diferente do agito de Jericoacoara, a vila ainda não sofreu um processo tão grande de gentrificação, o qual resultou quase numa extinção da população nativa do espaço. Barra Grande possui muitos pescadores e também um grande número de população nativa que vivem num espaço um pouco separado dos points turísticos… Na verdade conseguimos distinguir uma divisão entre turismo e espaço nativo – onde muitas vezes, não se misturam.

Meu avô, de 81 anos, uma pessoa muito curiosa, se sente um pouco mais à vontade com a população local. Ficamos numa casa ao lado de uma oficina de moto, a oficina do César, e do lado, tinha o seu Antônio, que vendia água mineral e gasolina. Meu avô batia cartão todos os dias. Sempre com uma cadeira na frente da calçada, conversando sobre qualquer coisa e vendo o movimento da rua com seus novos amigos.

O fato é que eu estava pela segunda vez em Barra grande, e por ter frequentado muito os espaços (restaurantes e bares) turísticos na última vez que estive por lá, queria, agora, explorar um outro lado da vila. Chamei meu avô, e partimos a pé para a vila ao lado chamada Barrinha.

Debaixo de um sol de 40º – aquele próximo da linha do equador – caminhamos. E eu, arrastando os passos com minha havaianas branco e azul, percorremos – sem notar – uma distância considerável: o suficiente para se desidratar. Preocupado com as condições físicas do meu avô, resolvi voltar e parar em algum boteco, algum local para nos abrigar do sol, descansar e tomar uma cerveja.

No meio do caminho, às vezes éramos abordados por moradores locais. O fato de nós dois sermos descendente de japoneses, chamavam a atenção de todo mundo que estava por lá – principalmente porque falávamos português: “Mas como tú, com esses olhinhos tão rasgados, fala tão bem português…?” Pude notar o quanto é rico, complexo e problemático a noção de nacionalidade brasileira.

Não demorou muito para eu observar algo de meu interesse. Uma casinha amarela escrito “Bar do Carlinhos” em vermelho. Bem no cantinho, um outro escrito em azul: “Temos ostra”.

Entramos no bar e cumprimentamos dois caras que estavam jogando sinuca bem no meio do salão. Um deles, o próprio Carlinhos. Um senhor baixinho, carismático e ao mesmo tempo bem quieto. Tava sem camiseta, mostrando sua barriga. Deixou o taco de sinuca de lado e foi em nossa direção com um sorriso tímido perguntando o que gostaríamos. Pedi uma Original – que por sinal estava muito barata comparado com preços em São Paulo – e ele me trouxe uma garrafa quase congelada. A cerveja desceu no meu estômago como um remédio contra a fadiga, estava tão cansado e castigado pelo sol, que naquele momento, meu corpo fora regenerado pela própria cerveja. Nem consegui prestar atenção em outros dois rapazes que estavam sentados atrás de mim.

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Falavam algo sobre qualquer coisa, esses papos de boteco. Dos quais no momento, você acha que é uma reflexão importante, mas logo depois esquece e no fundo, ficou gravado no seu inconsciente. Talvez o boteco está para o divam, assim como o terapeuta está para a cerveja.

Meu avô pediu uma dúzia de ostras. Estas que depois descobri que eram criadas pelo próprio Carlinhos. Infelizmente, eu não como ostra, mas posso dizer que meu avô – esse come muita ostra – aprovou e adorou tanto, que pediu outra dúzia. E a cerveja gelada no copo. Isso era o que mais importava naqueles instantes.

Após esfriar o corpo, me dei conta de onde estava. O espaço, era incrível. Pude notar, como a luz intensa do nordeste cria um contraste com a sombra nos interiores das construções. Tudo era um pouco escuro e fresco. Ao mesmo tempo que aberto, o salão nos abrigava de uma maneira muito agradável do sol e também do espaço externo. Ao centro, tinha uma mesa de sinuca. Do lado direito, uma sala com balcão onde Carlinhos armazenava nos freezers as cervejas e logo ao lado, deixava o seu som tocando.
Naquele momento o que mais me chamou a atenção era a trilha sonora do bar. Estava tocando Belchior e logo depois foi para um Lô Borges, Engenheiros do Hawai… era bem eclético. Aos poucos, fui percebendo que lá, era um espaço muito especial, e que eu precisava conhecer um pouco mais de seu dono.

No canto esquerdo tinha a churrasqueira, uma cadeira de balanço pra dormir, e os dois rapazes que depois os conheci, o Pedro e o seu Luis – ambos estavam trabalhando na construção de uma pousada que ia ficar na frente do bar.

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Logo emendei um papo com seu Luis, um senhor de Recife mas que mora a um tempo em Teresina. Veio de lá pra trazer materiais de construção no seu caminhão. Viaja o nordeste inteirinho fazendo isso. O Pedro tava trabalhando como pedreiro – esse é do Ceará, de Juazeiro, porém torce para o São Paulo: Como assim, tú não torce pro Ceará ou pro Fortaleza?

Da empolgação do papo fomos para a euforia das risadas. Me sentia pertencido naquele espaço. Me sentia como um deles. E essa sensação, era muito boa pra mim. Talvez, nesse momento, não me sentia um turista como da última vez que tivera por lá.

Diante das empolgadas conversas, e das faixas tão impressionantes da trilha sonora do bar, perguntei pro Carlinhos se ele tocava algum instrumento: Toco triangulo…
Pronto! Traga um pandeiro pra gente tocar junto.

Pois então, Carlinhos trouxe um ferro de construção retorcido, e todo enferrujado. Aquilo tinha uma alma, falava por si próprio! Havia ganho de seu pai quando tinha 6 anos de idade e fora nele que aprendeu a tocar, foi ali em que ele aprendeu a ciência. Começou a tocar algumas canções de folia de reis, depois foi para uns forrós. Perguntei se tinha alguma canção de pescador, pois ele tocou também.

a maré que vai, a maré que vem…

Depois empeçou a me ensinar o toque da porta, um outro jeito de tocar triangulo por fora e com uma quebra diferente no ritmo, e assim, ficamos tocando juntos, acompanhando A vida do viajante, de Luis Gonzaga.

Saindo do ludibriamento com a música, percebi que todo mundo estava envolvido com o som, cantando, acompanhando o ritmo da música com a batida do pé… O Pedro ficou animado: foi no caminhão e voltou com uma sacola de pequi dizendo pro Carlinhos preparar um arroz. Gentilmente ofereceu um pouco pra mim, que claro, aceitei com muita animação. Não é todo dia que se tem pequi em casa.

Havia prometido para minha avó, antes de sair, que voltaríamos para almoçar. Já era hora. Me despedi de todos e sai com meu avô no caminho de volta.

O seu Luiz, antes de dizer adeus, me atentou para visitá-lo caso tivesse por Recife, e que eu tinha que conhecer Juazeiro de qualquer jeito. Marcou seu telefone num guardanapo, deu um sorriso honesto e acenou.

Acenei também, sem jeito. Virei, e parti com meu avô de volta para a casa, caminhando debaixo do sol do meio dia.

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