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Entrevistas – Pedro Lopes

Numa quarta-feira chuvosa, fui visitar o ateliê do Pedro para realizarmos uma conversa sobre sua trajetória. Recebido por Rose, sua companheira, sentamos no sofá da sala e com o estalo de um lampejo – aquele tempo que dura para o raio cair na terra – fui transportado para um outro tempo, como num romance proustiano. Esse tempo das minhas memórias, das quais eu mesmo não vivi – uma espécie de pertencimento apartado e que a partir de um esforço, o Pedro me fez resolver esse conflito/tensão. Mas que na verdade, essa resolução só me fez encontrar tantos outros conflitos:

“Comecei a me interessar por arte a partir dos 7 anos de idade ao ver pela primeira vez, minha mãe desenhar. Eu achava aquilo um milagre: alguém poder criar uma imagem só com um lápis… Aquilo foi uma coisa que me marcou muito, e então, aos 8 anos de idade, consegui fazer meu primeiro desenho e percebi que o resultado foi próximo àquele que minha mãe havia feito – até porque era um desenho simples, minha mãe não tinha tanta habilidade. Ela só gostava de desenhar e bordar então ela desenhava umas pessoas, uns caipiras, e pra mim aquilo me fascinava. Eu era muito religioso e meu primeiro desenho foi um São Francisco – parecia mais uma bengala (risos), mas pra mim, era o São Francisco. Eu já era contemporâneo sem saber (risos). Interessei por aquilo, mas nunca havia visto uma pintura na vida, até que descobri por acaso, uma loja de molduraria mas que também tinham pinturas de um alemão chamado Ludovico Prohaska. Ficava na Rua da Penha, esquina com a Rua Arthur Gomes – ali era a molduraria, a casa e o ateliê do Ludovico Prohaska. Quando vi aquilo, eu fiquei encantado, fiquei estupefato.  Resolvi que ia fazer pintura.

Quando era pequeno, fiz seminário. Na manhã em que fui para o seminário, peguei meus mil e novecentos cruzeiros e comprei minha caixa de tinta e comecei a pintar no seminário mesmo. Pintei meu primeiro quadro sozinho, sem a influência de ninguém. Mas havia um padre que pintava também, então comecei a ter orientação com ele e a me interessar cada vez mais por pintura. Esse frei tinha uma pintura mais gestual e expressionista, ao mesmo tempo em que fazia muitos ícones religiosos para igreja. Portanto, meu inicio foi uma pintura mais religiosa, e quando saí do seminário, continuei pintando e fui aprender mais no ateliê do Flavio Gagliardi. Eu fiquei lá durante 2 anos, e lá que conheci um grande amigo meu – também pintor – o Toshi. Fizemos muitas parcerias e compartilhávamos muitos trabalhos.

Com quinze anos, decidi que sairia pelas ruas de Sorocaba para pintar sua paisagem. Aconteceu que em 1966, teve uma exposição antológica organizada pelo Cruzeiro do Sul, e uma das coisas que eles fizeram, foi uma exposição com todos os grandes pintores de Sorocaba. Eu participei dessa exposição e fiz um sucesso porque fui o único pintor que produziu uma obra a partir da própria paisagem e não de uma reprodução fotográfica. Com esse evento dessa exposição, criou-se um grupo chamado Amigos da Arte. Esse grupo se reunia para pintar, conversar e posteriormente criaram um negocio chamado de happening, mas que de happening não tinha nada. Que era fazer uma exposição lá na Frei Baraúna. Esses pintores iam lá expor seus quadros e pintar ao vivo, e eu também comecei a participar – tinha uns 16 anos. Era bem atuante. Naquela época começou a vir algumas coisas importantes para Sorocaba. No gabinete de leitura, veio uma exposição que tinha Volpi, Rebolo, Ianelli…. Uma exposição que veio da secretaria de cultura, onde traziam alguns palestrantes, dentre eles, Walter Zanini e Pedro Manuel Gismondi, que foi o curador da coleção Arte do Brasil, publicada pela Abril Cultural. Ele veio para cá, e eu era bem moleque… tinha um pintor chamado Zezé Correia que convidou o grupo Amigos da Arte e o Gismondi para conversar. Ele havia colocado os quadros na frente, e eu bem quieto no canto… o Gismondi sentou no sofá pegou um cachimbo e começou a questionar as pinturas, e eu bem quieto acanhado no meu canto. Só que tinha um cara que me incentivou a mostrar minhas pinturas. Eu não quis, mas ele foi lá e colocou na frente. O Gismondi olhou e perguntou de quem era… com medo, falei que era meu, e por incrível que pareça, ele elogiou demais minha pintura: “Pinta como quem almoça e janta” – comentou.

Retrato por Chores Rodriguez

(retrato de Pedro Lopes por Chores Rodriguez)

Passando isso, continuei meus estudos. Fui terminar o cientifico que era para quem ia fazer engenharia ou medicina. Nessa, descobri que gostava mais dos desenhos das formulas das cadeias carbônicas do que a idéia de fato… Saí de lá resolvido que ia estudar arte. Lá por 1970, ganhei um prêmio estadual que era do Mapa Cultural, e Sorocaba era uma sede desse prêmio. Eu participei dessa exposição, entrei, mas não ganhei… E tinham críticos muito importantes no júri. Eu e o Toshi ganhamos numa outra edição, aí quando ganhei esse premio, fiquei animado e resolvi me dedicar um pouco mais, pois, de certa forma, esse prêmio era um aval para mim. Em 1972 ganhei um prêmio aquisição no MAC Campinas. É interessante porque, na minha ignorância, eu já tinha uma noção sobre conteúdo e contexto da arte… O quadro por exemplo, se chamava: “enfrente a parede listrada, não há nada que não seja um recipiente lilás cheia de maçãs verdes”. Pra mim, essa recorrência do nome, contrasta ou reafirma algo que estava acontecendo na época. Eu já tinha uma noção do que estava fazendo, isso em 1972, e se analisar os anos 1970, bate com aquela decepção, porque nos anos 1960 apontava para algo utópico como o movimento hippie, e de repente, nos anos 1970 os caras começam a andar de terno e gravata, param de fumar maconha e começam a beber. Acaba-se um romantismo. Você tinha que trabalhar, ganhar dinheiro e essas minhas pinturas da época, acabam mostrando essa aridez.

Em 1973, resolvi entrar nas Belas Artes para continuar a me dedicar aos estudos… Saindo de lá, em 1976 recebi um convite para dar aula na própria Belas Artes. Comecei a dar aula de composição, expressão e superfície, modelo vivo… Despertando assim para uma sistemática aplicada que somada com liberdade de reflexão e questionamento, ficaria um ensino perfeito. Quando passei a dar aula, não queria saber de nada… dava setenta aulas por semana. Nesse período eu parei de produzir, era aula direto. Ganhava dinheiro, mas bebia tudo… eu não tinha nem cama em casa, ao mesmo tempo em que comprava caixas de vinho italiano… Depois daquilo, quando em 1979, eu percebi que não pintava mais, não ouvia mais música… e resolvi recomeçar a pintar. Como dava aula na Belas Artes onde era a Pinacoteca, e morava na Praça Roosevelt, reparei que morava no luxo e trabalhava na boca do lixo, e aí comecei a pintar esse mundo que via: as putas, os moradores de rua… com isso eu consegui participar do segundo salão paulista de artes visuais que funcionou durante dois anos e acabou se transformando em Salão de Arte Contemporânea.

Em 1985, parei de dar aula na Belas Artes e como fiquei sem emprego, resolvi me dedicar a pintura. Fiz uma exposição na Marina Potric em Goiânia. Vendi tudo, mas era engraçado que mesmo assim nunca sobrava dinheiro… Teve também o Claudio Telles da galeria Espaço Capital, que foi em casa e comprou todos meus trabalhos e pediu para que me levasse para Brasília.

Painel 19 1968-1977_E seguindo a canção...(Os anos de chumbo e terceiro ciclo industrial)_DSC8675.jpg

“Painel 19 1968-1977_E seguindo a canção...(Os anos de chumbo e terceiro ciclo industrial)”

Só que, chegou numa época que fiquei numa crise. Acordava cedo para pintar, e quando chegava meio dia, estava completamente frustrado. Quando era cinco horas da tarde eu tava acabado… jogava tudo fora e ia pro boteco. Só que tinha um aluno meu, caricaturista que passava lá no lixo e pegava esses meus trabalhos… Mesmo assim, foi o período em que resolvi parar e voltar para Sorocaba. Nesse período, fiquei trabalhando de vitrinista, e na TV Manchete com pintura cenográfica. Aos poucos comecei a participar um pouco mais do movimento das artes em Sorocaba. Em 1995, surge Terra Rasgada, movimento cultural que englobava todas as artes, na Oficina Cultural Grande Otelo, dirigida por Manuel Ribeiro Rodrigues. Achava aquilo um máximo, era uma movimentação muito viva e empolgante. Então, convivendo com essa energia e depois entrando em contato com as ideias do Zeca (dr. José Carlos de Campos), de enxergar o universal em Sorocaba, surgiu a ideia de executar painéis que contassem a história dessa cidade. Para mim, isso era como se fosse um TCC, uma prova final, e o resultado será exposto agora, em Agosto de 2018. Acho que Sorocaba está no nível máximo de entropia, está na beira de transbordar uma explosão cultural para se ter um começo, está na beira de criar uma situação em que ela se baste dentro das artes visuais.”

A chuva para. Rose serve um chá e um bolo delicioso. Reflito sobre esse conflito temporal – já não sei se minhas sensações me lançam para um passado, ou para um futuro. Me contive com a proposta deles estarem interligados, coexistindo numa simbiose. 

Allan Yzumizawa,

Sorocaba, 25 de Julho de 2018.

confira as obras de Pedro Lopes aqui.

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