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Filipe Acácio – Zona de Remanso

O que te dói em Fortaleza? O que te faz permanecer? São essas as perguntas que ficaram em mim ao sair da exposição Zona de remanso: exercícios de permanência, individual do artista cearense Filipe Acácio, com curadoria de Galciani Neves.
A exposição que fica em cartaz entre os dias 11 de novembro e 16 de dezembro, configura-se no programa Zip’Up, projeto da Zipper Galeria que fomenta jovens artistas
em emergência dos quais não são representados por galerias paulistanas. Desse modo, esse projeto permite uma maior flexibilidade em experimentações das linguagens
artísticas como também pelas proposições curatoriais.

A mostra sintetiza uma pesquisa realizada pelo artista entre 2014 e 2017 no litoral de
Fortaleza, Ceará, nos muros de contenção construídos entre o mar e a cidade. Esses
muros, são responsáveis em criar o que se conhece como Zona de remanso, zonas que
formam uma pequena enseada tranquila, gerando um certo repouso – movimento
cessado. Entretanto, “repouso” é a expressão inexistente na exposição. Antes mesmo de entrar na sala – localizada no andar de cima da Zipper Galeria, podemos ouvir um som agitado do mar. A pequena sala encontra-se com uma luz baixa, iluminada somente por lâmpadas incandescentes suspensas pelo um cabo comprido, deixando-as na altura dos nossos olhos. Essa iluminação, nos traz uma certa proximidade com os trabalhos, uma
intimidade.

Ao entrar no espaço, podemos reparar que o som do mar, ouvido lá de fora, pertence à
um video projetado na parede onde mostra uma ação em que o corpo do artista entra
numa zona de conflito com a força das ondas da água (O farol, a parede, o porto) . O
corpo tenta a todo momento resistir, ficando sempre no limite do equilíbrio/desequilíbrio, e no limiar do afogamento. No vídeo que sucede, apresenta o artista segurando um espelho de frente para a câmera, a qual é atrapalhada pelo reflexo da luz refletida. Essa série de exercícios de permanência no espaço registrada em vídeo, foram realizadas em vários portos no litoral cearense: Serviluz, uma comunidade que sofreu uma chacina nos anos de 2015 e 2016; Poço da draga e Pecém.

Site---O-farol--A-PAREDE--o-porto-03_2000

No chão da sala, objetos (entendido também como dejetos) encontrados no fundo do mar
(colher, pedra e fragmentos diversos) são enfileirados de uma maneira quase matemática onde podemos observar as diversidades cromáticas e os vestígios das suas ações, que são documentadas através de fotografias expostas na parede ao lado. Nesses registros, podemos ver o corpo nú do artista, que sem nenhum equipamento, mergulha no fundo do mar para pegar esses dejetos.

Ao lado dessas fotografias – espalhado pelas paredes da sala – observamos alguns
desenhos que beiram o ilustrativo e o abstrato. O fino traço, registra na pequena
dimensão do papel, toda imensidão que ocorre dentro do artista. A mesma intensidade do mar registrado no vídeo – está contido de maneira implícita nos desenhos de Filipe
Acácio. Então, retomo a pergunta de início: “o que te dói em Fortaleza?” Talvez a Zona de
remanso, essa zona de repouso, seja uma utopia que se transborda em desejo e se
manifesta no seu ato de permanência. Permanecer, é a esperança do artista de que em
algum momento, esse repouso irá se dar nessa cidade.

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