artes visuais

Resenha: “A Invenção de Hélio Oiticica”

O livro “A invenção de Hélio Oiticica” escrito por Celso Favaretto e publicado
pela editora EDUSP, traça um percurso da produção de Oiticica, ressaltando o seu
carácter experimental e marginal, tendo sempre como base os textos do próprio artista.
Esse feitio é que descreve a desestetização, a qual o próprio artista monta as bases da
sua teoria artística, formando uma certa independência dos textos críticos de arte. Tendo
isso em mente, o autor do livro, utiliza-se como base esses textos que se manifestam das
mais variadas formas: cartas, livros, entrevistas, catálogos, revistas etc. E assim, Celso
Favaretto nos conduz para esse percurso experimental de um dos artistas mais
importantes do Brasil: Hélio Oiticica.

Nesse percurso, que metaforicamente se dá de uma forma linear, Favaretto
mostra o início das produções artísticas de Oiticica junto com seu Grupo Frente ainda na
década de 1950. Nesse período, Hélio está interessado nas pesquisas do concretismo,
tendo como seus ídolos, Mondrian e Malevitch. No entanto, essa pesquisa começa a
ganhar questionamentos e se adentrar numa crise da pintura, a qual o quadro/cavalete
aos poucos começa a se desintegrar e assim surgir o grupo Neoconcreto.

O fato dos quadros de Malevitch se fecharem para o ilusionismo, fez Hélio
enxergar a sua materialidade quanto construção e desse modo, uma linha de fuga para se
pensar o espaço: a realização plástica pura no ambiente. O quadro torna-se então o
próprio objeto e surge assim trabalhos como: Bilaterais e Relevos que são nada mais do
que cores suspensas no espaço.

A partir do momento que Oiticica conquista o espaço e apoiado por teóricos da
fenomenologia como Merleau Ponty, suas reflexões irão avançar cada vez mais sobre
questões do espectador, movimento, experiência. Surge então, um importante trabalho
conhecido como Penetráveis. Agora a obra se integra no ambiente e o espectador se
torna continuador da obra e desse modo, aos poucos a arte começa a se misturar com a
vida, um dos temas mais importantes da pesquisa do artista.

Essas questões vão incitar o artista a produzir os Bólides, que são estruturas de
inspeção, os quais indicam o ato de explorar, manipular, mexer, olhar, pelos
participantes e paralelamente, um dos seus trabalhos mais famosos, o Parangolé.
Enquanto os Bólides agiam como contenção das cores (aprisionando pigmentos de cor
nas estruturas do objeto) o Parangolé fazia o movimento contrário: dissolução de cores
através dos movimentos dos corpos. A experiência desse trabalho se dava na pessoa quevestia e dançava com a capa e no espectador que observa esse ser dançante que desse
jeito unindo espectador-obra-vida.

Cada vez mais, Hélio Oiticica se debruça na sua investigação experimental do
aspecto suprassensorial da vida, em que transformam os processos de arte e sensações
da vida cotidiana. Esse percurso que se inicia em 1959, o artista chamará de Nova
Objetividade. É importante ressaltar, que Oiticica não queria criar uma vanguarda, mas
indicar aspectos coletivos da sua produção e pesquisa. Os trabalhos que irão surgir daí
serão Tropicália, Ninhos, Apocalipopótese e por fim o Barracão.
Já no final da sua vida, Hélio se retira em Nova Iorque e atinge um estágio quase
puro de criação, o qual já não consegue mais distinguir objeto/fluxo/criação por
etiquetas determinadas. No final da década de 1970 começa a produzir os seus quase-
cinema, experiências não-narrativas audiovisuais, quando então falece ao retornar ao
Rio de Janeiro em 1980.

Por: Allan Yzumizawa

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